segunda-feira, 8 de março de 2010

Segurem os bodes, porque as cabras estão soltas

Quando eu era menino e pensava como menino, eu via as meninas sentadas de pernas cruzadas. Minha mãe e meu pai sempre comentavam “como é difícil criar meninas”, “dá trabalho”. Eu ficava pensativo, Por que criar meninas dá trabalho? Não é a mesma coisa?elas comem, bebem, dormem, choram , adoecem bem diferente e complicado? Contudo eu não questionava, afinal eram meus pais, minhas referências enquanto pessoa.

Certa vez, um menino e uma menina na escola foram pegos namorando no pátio. Foi uma confusão, a mãe da menina foi brigar e repreender o garoto. Nesse meio tempo foi quando eu de longe ouvi a frase que até então escuto nesse meu Nordeste: “Segure sua cabra, porque meu bode está solto”.

“Pobrezinha da cabra” pensei! Se ela ficar presa como vai poder viver? Encontrar suas amiguinhas e amiguinhos? Se divertir?

Mais tarde, bem mais velho, comecei a entender que essa frase, incitando amarras e sempre constante nos discursos e piadas das pessoas, fazia uma referência figurada à sexualidade da mulher. Mesmo enquanto homem e saindo em vantagem, já que eu podia “pintar e bordar” sem ser criticado pela sociedade, eu ficava reflexivo, porém essa reflexão e indignação de imediato desapareciam, pois o problema das meninas não era meu, já que sou menino.

Na faculdade, percebi como as coisas mudaram rapidamente. A tecnologia, avanços das comunicações e etc. salvaguardavam, mesmo que timidamente, conquistas no campo dos direitos, principalmente no que compete a emancipação da mulher. Todavia, a frase ainda ecoava e os discursos e risos subjacentes a esse texto dos bodes soltos e das cabras presas permaneciam ainda legítimos e hegemônicos. Logo, veio o grande aprendizado de minha vida, o entendimento do que é cultural e histórico, e o que isso influencia direta e indiretamente na formação das pessoas.

Como estudante e em certo aspecto linguista que sou, pude associar essa cultura das cabras presas de imediato com as expressões “inofensivas”: galinha, vaca, cachorra, cadela, piranha, maçaneta, bolacha, mulher fácil e etc. e para ser mais crítico, entender porque um homem ser comparado a um galo, boi ou touro, e assim vai, é sinal de virilidade e não soa pejorativo.

Há meses atrás, li nos noticiários sobre uma aluna universitária sendo violentada por seus colegas e professores, bem como sendo expulsa por usar uma minissaia. Ora, entrei “em parafusos”, como se diz popularmente, não entendendo como conquistamos tanto espaço e menos preconceitos em meio ao mundo tecnológico e pós-moderno, e ao mesmo tempo damos passos largos de retrocesso humano.

Foi aqui que entendi que o preconceito pós-moderno, o machismo pós-moderno, estão travestidos de outra imagem, eles são lobos em pele de cordeiro, ele está por trás da justiça que não tem estado vendada e nem é feminina. Ela tem sido bem masculina e ainda apontam as representações sociais de mulher sob ótica do recato e subserviência.

O machismo ainda é (in) conscientemente elemento constitutivo do que somos enquanto sujeitos numa sociedade capitalista. Quando apontamos mulheres sob aspecto do vulgar e fácil, “desclassificada”, negamos a elas o direito de ser o que é como bem entendem, com direito ao seu corpo e decisões sobre eles, tendo sua livre expressão afetivo-sexual, ou seja, seus direitos sexuais e reprodutivos . Pior, damos respaldo para que maridos espanquem esposas, entendendo as mesmas como parte de suas propriedades, que mulheres não sejam eleitas para cargos gestores e os salários sejam desiguais . Apedrejamos indiretamente, como no Oriente, as nossas mulheres brasileiras por serem o que são em sua dor e delícia.

Hoje, “caiu minha ficha”. A importância do meu discurso e o meu papel social na condição de homem no tocante à defesa das “cabras soltas” e quando necessário dos “bodes presos” para não agredirem as cabras . Aliás, eu nunca entendi como com os bodes soltos e as cabras presas , esses mesmos bodes iriam pegar as cabras. Confuso e questionável. Isso só reforça a defesa das cabras soltas, com sua sexualidade livre para amar outra mulher, amar mais de um homem, sendo monogâmica ou não.Eu quero defender as cabras soltas para amar, para serem mulheres de verdade como elas se (re) pensam e se (re) significam, como elas bem quiserem , na hora e no tempo que entenderem, sem cabrestos.

Luciano Freitas Filho- Vice-presidente da ONG Leões do Norte
Membro da Gerência de Direitos Humanos da Secretaria de Educação de Pernambuco.

Um comentário:

Anônimo disse...

PER-FEI-TO!